José Carlos Capinan, bravo poeta da MPB, ganha tributo com João Bosco, Virgínia Rodrigues e Áurea Martins
José Carlos Capinan acompanha gravação feita em estúdio de Salvador (BA) para o tributo fonográfico ao compositor baiano de 85 anos Divulgação ♫ NOTÍC...
José Carlos Capinan acompanha gravação feita em estúdio de Salvador (BA) para o tributo fonográfico ao compositor baiano de 85 anos Divulgação ♫ NOTÍCIA ♬ “Compositor lírico, político e guerreiro que vive na carne cada verso e cada rima”, como caracterizou Maria Bethânia em texto escrito para o livro “Cancioneiro geral [1962 - 2023]”, o poeta e compositor baiano José Carlos Capinan chegou aos 85 anos, festejados em 19 de fevereiro, entronizado no posto de um dos letristas mais importantes da MPB. Aclamado pela poesia audaz das letras que escreveu para músicas de compositores como Edu Lobo, Gilberto Gil, Jards Macalé (1943 – 2025) e Paulinho da Viola, Capinan tem a obra celebrada em álbum que reúne intérpretes de diferentes estilos e gerações. Cantora que revelou Capinan como letrista em 1965, com a gravação de “Viramundo”, parceria do poeta com Gilberto Gil, Maria Bethânia foi convidada a integrar o elenco estelar do tributo fonográfico gravado em estúdios de várias cidades do Brasil com produção musical de Alê Siqueira e aval de Guto Ruocco, produtor do show “Cancioneiro geral – Tributo a Capinan” (2024), realizado há dois anos em São Paulo (SP) com Renato Braz, o supracitado Macalé e o próprio Capinan no palco. Pautado pelas regravações das músicas mais conhecidas do letrista de “Soy loco por ti, America” (outra parceria com Gil, de 1968), “Movimento dos barcos” (parceria com Macalé, 1971) e “Ponteio” (parceria com Edu Lobo, de 1973), o álbum tem tido a feitura acompanhada por Capinan. João Bosco e Áurea Martins cantam juntos 'Papel machê' (1984), parceria de Bosco com Capinan Divulgação Em agosto, o poeta foi ao estúdio de Salvador (BA) – cidade onde reside desde os anos 1960 – acompanhar a gravação de “Yayá Massemba” (parceria com Roberto Mendes, de 2003) pela cantora baiana Virgínia Rodrigues. Virgínia canta a música há anos em shows, mas nunca a tinha gravado. No Rio de Janeiro (RJ), João Bosco se encontrou com Áurea Martins em estúdio para feat inédito. Os artistas gravaram juntos “Papel machê” (1984), música feita por Bosco com letra de Capinan que se tornou um dos maiores sucessos do cancioneiro do compositor mineiro. O álbum foi idealizado para que se dê a José Carlos Capinan as flores em vida, reconhecendo a importância o compositor letrista na poesia da moderna canção brasileira, como parceiro de artistas que redefiniram o panorama artístico do Brasil a partir dos anos 1960. José Carlos Capinan e a cantora baiana Virgínia Rodrigues, que gravou 'Yayá Massemba' (2003) para o álbum em tributo ao compositor Divulgação Entenda a importância de José Carlos Capinan na música popular brasileira: Nascido em 19 de fevereiro de 1941 em arraial de Três Rios (BA), mas registrado em Esplanada (BA), vizinha cidade litorânea do interior da Bahia, o poeta José Carlos Capinan foi ideologicamente formado pelo Centro Popular de Cultura (o CPC da UNE) de Salvador (BA), cidade para onde o então emergente poeta migrara em 1960 para cursar direito em universidade da capital da Bahia. Foi no CPC que Capinan travou os primeiros contatos com Caetano Veloso e Gilberto Gil, arquitetos da Tropicália, movimento pop de 1967 / 1968 que teve em Capinan um dos principais letristas. Dois anos antes, em 1965, Capinan já abrira parceria com Caetano e Gil, compondo com ambos a trilha sonora do filme “Viramundo”, engajado documentário do cineasta Geraldo Sarno sobre o fluxo migratório do povo nordestino rumo às capitais do S udeste do Brasil. A música-título do filme explicitou a influência da música nordestina na poética do letrista. Essa vertente também ficaria evidenciada em “Ponteio”, baião moderno que venceu festival de 1967, alicerçando a parceria de Capinan com Edu Lobo, com quem o letrista assinaria posteriormente “Viola fora de moda” (1973) e “Repente” (1976). Como parceiro de Caetano, Capinan assinou os versos de “Bonina”, “Clarice” e “Maria Maria” – três músicas lançadas em 1968, sendo que somente a segunda alcançou alguma repercussão. Com Gil, a parceria foi mais extensa e popular, gerando canções como “Ladainha” (1966), “Misere nobis” (1968) e o sucesso “Soy loco por ti, America” (1968), tributo ao revolucionário argentino Che Guevara (1928 – 1967), feito por Gil e Capinan no embalo da emoção com a morte do guerrilheiro marxista associado à Revolução Cubana. Coube a Caetano Veloso dar voz a “Soy loco por ti, America” no primeiro álbum solo do cantor. Segunda música de Capinan que chegou ao disco, “Ladainha” foi apresentada em 1966 na voz da sempre antenada Nara Leão (1942 – 1989), cantora que incluiu a música em álbum sintomaticamente intitulado “Manhã de liberdade” (1966). Já “Misere nobis” integrou o repertório do álbum-manifesto “Tropicália ou panis et circensis” (1968). O endurecimento do regime militar, a partir de dezembro de 1968, se refletiu na poética musical de Capinan, sobretudo nas letras feitas para músicas de Jards Macalé. “Gothan city” (1969), “Movimento dos barcos” (1971) e “Farinha do desprezo” (1972), entre outras composições, espelharam um estado d'alma mais sombrio que dominava a parcela mais consciente da população do Brasil na primeira metade dos anos 1970. Como o mar estava revolto, em vez de lamentar o eterno movimento dos barcos, Capinan foi para outros portos seguros sem fugir à luta. O poeta abriu espaço para o lirismo existencialista ao escrever letras para sambas e choros de Paulinho da Viola, parceiro de “O acaso não tem pressa” (1971), “Vinhos finos cristais” (1971), “Coração imprudente” (1972), “Orgulho” (1972), “Sofrer” (1978), “Viver sem amor” (1981), “Mais que a lei da gravidade” (1983) e “Prisma luminoso” (1983). Antes, com Paulinho, Capinan já fizera “Canção para Maria” em 1966. Em qualquer tom, a poesia de José Carlos Capinan nunca desbotou, seja exalando o cheiro brejeiro de “Moça bonita” (parceria com Geraldo Azevedo, de 1981), seja expondo as cores do lirismo romântico de “Papel machê” (1984), hit popular da breve parceria com João Bosco, seja mapeando o percurso marítimo do escravizado povo negro em “Yayá Massemba” (parceria com o conterrâneo Roberto Mendes, lançada por Maria Bethânia em 2003). Os tons variaram, mas José Carlos Capinan chega aos 85 anos ainda identificado com a poesia guerrilheira da canção popular, um compositor lírico e político que vive cada verso na carne, como bem o caracterizou Maria Bethânia, primeira intérprete do poeta.